Rural e Jeep ? De onde saiu essa idéia ?!

       Tô Bão ! 

Comprei uma Rural 1962, 4x4, primeiro dono, que para um carro de 39 anos e meio isso não interessa muito, motor BF 161, câmbio 3 marchas original no assoalho e com a 1ª seca. Cinza e branca, saia e blusa. Deve virar verde e branca, sei lá. Isso vai depender do gosto da Rose, mas prefiro verde.

Bem, na verdade é só uma base prá se "fazer" uma Rural. Já tá na oficina prá desmanchar tudo e refazer novamente.

Fui com Rosilene dia 06/12 à Dores do Indaiá, e busquei a Faustina. A notícia é curta, mas o caso longo.

A idéia de ter um Jeep era minha e muito antiga, antiga mesmo. Mas fermentou com a viagem minha e da Rose para Diamantina em 10/11/2001.

Saímos lá pelas 8:00 da manhã, só com o rumo: íamos pegar a estrada da Serra da Cipó à Conceição do Mato Dentro. Asfalto até a Serra, com um monte de quebra-molas em Lagoa Santa, e terra para frente. E estrada de terra é muito bom, principalmente quando está seca. Primeira parada Estátua do Juquinha. O carro não chega, então, pula corguinho, anda nas pedras, o vento não para, nem um minuto. E vamos tirar fotos...

Seguimos o caminho, e toma mais estrada de terra... Vão asfaltar. Dizem ser uma estrada ecológica, nem seio ou que é isso. Tem eleição ano que vem, e devem asfaltar mesmo. Vou ter que arrumar outros caminhos. Estrada bonita sobre as serras, tranqüila quase não se cruza com outro carro. E o vento não para. São ventos alísios. Só vão parar no dia em que a Terra parar de girar.

Conceição do Mato Dentro.Bonitinha, mas sem atrativos. Uma parada na frente de uma igreja antiga. Já notaram que estão sempre fechadas? Uma volta no cruzeiro, e sem descer do carro resolvemos ir para o Serro.

O Serro é famoso. A família do vovô Anderson sempre dizia que "o Serro é melhor que Diamantina", então vamos. Paramos na praça principal, demos uma voltinha e almoçamos. Já estava meio tarde, deviam ser uma 2 e meia da tarde, e o self se service a si mesmo já estava meio restolhado. Pessoal do interior tem mania de modernidade. Tava doido prá achar uma pensão, com uma cozinha preta pelo fogão de lenha, uma mesinhpequenininha, uma cadeira meio cambeta em cima de um assoalho lustradinho, barulhento e empenado pela idade. Tipo Dona Maria dos Beiços, lá na zona em Diamantina, há uns "poucos" carnavais atrás, mas só tinha self se service a si mesmo na cidade. - Aprendi este termo no aniversário da filha ou do filho do Jorge Resende Ramalho, o Geléia prá nois,  quando uma contratada dele veio nos chamar para comer:"O self se service a si mesmo já está servido". Mas voltando ao restolho cheiroso o garçom falou que fritava uns bifes. Topamos e não arrependi. Tava gostoso mesmo. Pedi até um Mate Couro para não sair da rotina e lembrar o PF da Dona Rosa perto da fábrica. Acabado o almoço, o menino, digo o garçom veio fazer uma média trazendo um doce de leite. Lembrando o Pitinho,  meu compadre, que adora doce de leite e come até uma gamela, disse: "O Pitinho aqui comia uns 20 destes". A Rosilene rolou de rir balançando a cabeça e os braços como sempre. É que o cara serviu o doce em um copinho descartável de café com uma colherinha de plástico. Eu que não sou Pitinho também achei muito pouquinho.

Fomos para a praça, e fotografamos quase a cidade toda, em uma só foto. "Quer saber, Rose? Vamos comprar uns queijos e vamos para Milho Verde?" Queijo do Serro é famoso. Então, paramos numa vendinha bonitinha, antiga e com uma velhinha atendendo. Os queijos podiam ser vistos da rua, dentro do balcão. R$2,50 cada ou o quilo, baratinho, felicidade total. Eis que a Rosilene cisma que o queijo bom é o mais fresco. "Com esse calor, Rose? Vai derreter tudo". Viraram borracha. Deixa curar e depois rala, qual outra solução? Achava também que a velhinha ia pesar os queijos em uma balança de pratos, fazer as contas a lápis em um papel de pão. Que nada! Balança eletrônica. Com direito a cálculo do preço em tempo real. Informações sobre a saída para Milho Verde, e tome mais terra. Já viram que quando se anda muito na terra o nariz vira olaria? É! Meleca vira tijolo !...

Quando a gente olha o mapa, vê que pela terra é mais perto, só que não aparecem as curvas. É mais ou menos a história que o papai conta dos trotes dos calouros antigamente. Tinham que dar a volta no Parque Municipal de Belo Horizonte, dando dois passos para frente e um para trás. Tinha outro trote para calouros, que era dar a volta no mesmo parque com um pé no meio-fio e o outro na sargeta...

Chegamos em Milho Verde. Depois de uma ladeira acascalhada, de um quilometro, escorregadia, quase virei o carro de ré, prá subir melhor. Lá é bonitinho e tranqüilo. Uma praça gramada, com uma igrejinha no meio e um campinho de futebol embaixo, em um alto de serra com uma vista de 360º, linda de viver, num é Hebe?

Tinha um monte de pousadas, umas quatro, só que estavam eu e Rose. Com uma turma teríamos uma noite melhor com uma cachaçada na tal praça. "Vamos para Diamantina?", disse Rose. Vamos, mas vamos até uma cachoeira primeiro, Milho Verde é cheio delas, depois vamos para Diamantina, resolvemos. Estava cedo ainda, umas 4:30, horário de verão, dava tempo. Fomos. Tudo deserto, trocamos de roupa ao lado do carro, no meio do mato. Andamos um pouco e achamos a tal Cachoeira do Moinho. Alto prá dedéu. Com dois munhos d'água. É assim mesmo, é assim que aprendi que chama, lá em Campo Belo, quando era criança. Munho! Mais fotos e essa ia ficar para a história, não fosse a gota d'água, ou o reflexo do sol na lente. Sei que ficou esse defeitinho...

Embora prá Diamantina? Vamos funcionar a olaria? Vamos! Passa de novo em Milho Verde, estrada de terra, São Gonçalo do Rio das Pedras, lugar legal, quero ir lá quando tiver Rural, estrada de muita terra, e depois de mais terra, Diamantina. Sem esquecer de dizer o sol baixo direto no olho, das paradas em cima de todas as pontes, a maioria de mão única, para ver o riozinho lá embaixo. Chegamos com dois braços e duas  pernas queimados do sol da viagem. Um braço e uma perna minha, um braço e uma perna da Rosilene! Lugar feio, meio favelado, nunca tinha chegado lá por baixo, nunca tinha andado lá em baixo. Estão invadindo os "pastos" de pedra e fazendo barracos. Nem precisa de alicerce. Rosilene também achou feio o lugar, e queria até voltar pela estrada de terra mesmo, na hora. Acaba a estrada de terra e começa os bloquetes e asfalto. Tudo feio. "Espere Rose, Diamantina é bom, é bonita." Começa as ruas com pedrões. Pedra São Tomé e Ouro Preto, aquele quartizito compactado chamado de pedra mineira, boas para decoração. Alívio. Começou Diamantina. A Diamantina que conheço. As ruas não me deixavam sentir saudades da estrada de terra. Só os pedrões esburacados. Sobe de 1ª prá aguentar, desce de 1ª prá não disparar.

Fomos procurar pouso. Tudo cheio. Pousadas, hoteis. Vagas só em muquifos esmulambentos. Descobrimos que tinha a tal Vesperata neste sábado a noite. Bom, tem o que fazer, mas não tem onde dormir. Lembrei do hotel na entrada da cidade, a entrada oficial por cima. Achamos vaga. Depois fiquei sabendo que o hotel é do tio do Marconi, cunhado da Rose, tinha peixada e não sabia. Tomamos banho, banho para tirar os tijolos, e é tijolo mesmo, e descemos ao centro.
    Andamos prá lá e prá cá, passeamos. Contei à Rose um monte de casos de carnaval com o
direito a mostrar os locais. Fomos jantar no restaurante Casa Velha. Velha mesmo, deve ter uns 200 anos. Depois... Vesperata. Festa do interior, com balõezinhos brancos, muito legal. Terminamos a noite no Bar do Nonô, embaixo da casa do Juscelino. Música ao vivo, só chorinho no sábado, e a melhor caipivodka que já tomei. Tava querendo virar a noite lá, mas só eu querendo e Rose com sono, não ia ter jeito. Então..., hotel.

Amanheceu o domingo, fechamos a conta depois do tradicional café de hotel, A gente sempre come mais que deve, né ? Fomos para a rua da Glória ver o passadiço e depois para a Cachoeira da Sentinela, Biribiri e Cachoeira dos Cristais. Estava nublado, então, só levei a Rose para conhecer, não deu para nadar. Voltamos a Diamantina e fomos à Gruta do Salitre, que na verdade é uma fenda nas pedras, cheia de pés e mudas de jabuticaba. Voltamos e almoçamos em um restaurante no centro, perto da rua da Quitanda.

Hora de voltar. Nas MG 367 e 259 tudo bem. Plano, dia claro, sem movimento. Depois de Curvelo na 135 e 040 o movimento aumenta. Carretas e caminhões a vontade, isso em pleno domingo. Rosilene então fala: "Se não fosse pelo carro, que ia acabar, queria voltar pela estrada de terra." Plimmm!!! "Vamos comprar um Jeep, Rose? Ou então uma Rural, que cabe mais coisas?" Vocês precisam ver eu e a Rose viajando para Carapebus. O Logus quase não dá, quase precisa de um reboque. "Rural é carro de velho", disse a Rose. Opinião esta, que depois de ver uma Rural ao lado de um Jeep ela iria mudar.

Saldo da viagem: 730 Km, sendo metade na estrada de terra, um final de semana sem igual, duas raspadas no peito de aço do Logus e uma pedrada que a tração jogou em um dos amortecedores ou na descarga, e que soou igual a um sino (acho que foi resultado de boa condução), e a convicção, ao menos minha, que iríamos comprar uma Rural. Sem contar a sujeira do carro, bancos encardidos, borrachas de porta rangendo, fechaduras duras. Só agora, depois de mais de um mês, conseguimos fazer ele voltar ao normal, coitado.

A compra da Rural foi após muito olhar anúncios no Jornal Balcão, Estado de Minas, Internet, encontros de Jeepeiros. Então resolvemos ir a Dores do Indaiá para comprá-la. A reforma dela ocasionou, também a compra do Edwaldo, o Jeep. É outra notícia curta, e outro caso longo.

30/12/2001

Walter Júnior
waltergjunior@uai.com.br
walter.junior@ig.com.br
 
 

    Aqui a concretização da vontade de chegar de carro na estátua do Juquinha, em uma viagem do Edwaldo em 15/11/2002 até Congonhas do Norte, a primeira viagem com o Chico. Exatamente um ano depois da fatídica história de viagem à Diamantina com o Rogério.

      

 

    Hoje já temos quase que toda a MG 10 asfaltada. Estão fazendo uma passarela calçada até a estátua do Juquinha, e também fecharam com uma cerca. Não dá mais prá ir de carro lá. Carro não ia mesmo, quero dizer Jeep. Calçaram também os dois pedacinhos que sobraram da estrada antiga, na altura das duas pequenas pontes de concreto. Deve ser pra dizer que aquilo foi a "Estrada Real" um dia. Mas para que isso? Essa estrada nunca foi calçada naquele trecho ! Sei que quase toda a graça da MG-010 se foi com o progresso. São duas estradas distintas: a de antes e a de depois do asfalto...

    Outro detalhe curioso. Na foto da viagem com o Rogério, o Logus, a igreja de Milho Verde estava pintada com a cor semelhante à do carro. Quando fomos com o Edwaldo, o Jeep, tinham pintado a igreja de azul e verde. Será que foi só para a foto ficar melhor?...

   

Apesar de sempre ter sido bem largado e ter costume desde pequeno com roça e coisas do campo, relendo essa história para colocar na página, ví como os conceitos mudam. Depois de tantas andanças com o Jeep e a Rural :
- O que não tinha atrativos, passou a ter demais;
- Estrada de terra que era boa seca, hoje é muito melhor enlameada;
- O que era um muquifo, hoje passou a ser um pouso de luxo...

Abraço à todos.